terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Treinamento com TADASHI ENDO e CARLOS SIMIONI

Silvia Leblon em Sonho de Ícaro - Foto: Juliana Hilal
Por um maior aprofundamento em seu trabalho, Silvia Leblon está fazendo um curso de três semanas com Tadashi Endo e Carlos Simioni, no Lume, em Barão Geraldo - Campinas, até o dia 04 de março.
                                                                                                                           

Entrevista ao Jornal "Causa Operária" edição nº 622


ESTOU LUTANDO PELO DIREITO LEGÍTIMO DE EXERCER MINHA PROFISSÃO LIVREMENTE NO PAÍS ONDE NASCI

Causa operária entrevista Silvia Leblon, atriz e historiadora. Participou da organização de grupo pelo direito de atividade dos artistas na Avenida Paulista em São Paulo. Organiza um grupo de palhaços que fazem intervenções pela cidade

Causa Operária: Pode falar um pouco sobre seu trabalho e a perseguição aos artistas na rua?
Silvia Leblon: Eu estou estudando o ator na rua e minha maior fonte de conhecimento é o LUME – Núcleo de Pesquisas Teatrais da UNICAMP, que trabalha com a arte de ator. Estou focada em duas pesquisas: o palhaço e a rua. Eu acho que estas duas linguagens casam perfeitamente. Faz parte do método que eu aprendi: fazer saída de palhaço. Quando ele cria uma figura, ela sai pra se mostrar, a fim de desenvolver seu jogo de relação com o público. Eu comecei a organizar saídas de palhaços desde 1999, no Parque da Água Branca. Pedi autorização. O parque é fechado, tem administração própria. Mas desde época eu fui informada que todo espaço público é de acesso livre para o artista, que isto está na Constituição. Pensei: o parque é um lugar público, com gente de todo tipo, vou começar por aqui. Isso definiu uma linha de pesquisa para o meu trabalho. Fui contratada em 2005 pela Fundação Cassiano Ricardo, de São José dos Campos, para organizar um cortejo de palhaços para o desfile de 7 de setembro. Ao lado dos soldados tinha uma ala de palhaços representando a Fundação. Seria um sonho fazer um grande cortejo, uma invasão de palhaços na cidade. Se não fosse a cultura eu não aguentaria ficar por aqui. Eu sempre penso em sair dessa cidade de concreto, poluída, agitada, suja, muitas vezes triste e desumana, mas ela me puxa para trabalhar nela. 
Em 2008 e 2009 dirigi uma montagem patrocinada pela Lei de Fomento no parque Jardim da Luz. Trabalhei lá durante um ano e meio com o grupo Ivo60. A Lei de Fomento para a Cidade de São Paulo criou um movimento que está fora da mídia e que é maravilhoso. Esta lei é exemplar, e está sendo usada como modelo para outras cidades, estados e até países; e agora está sendo atacada pela mesma Prefeitura. Não dá pra entender. Dá e tira. Lançaram um decreto que descaracteriza a lei, que dificulta e nega a própria lei. Foi uma conquista legítima da classe, que amadureceu na luta pelos seus direitos. Um governo democrático tem que ouvir o seu povo. Lembrando uma frase da Rosa Luxemburgo: “- ...a democracia é muitas vezes supérflua e incômoda para a burguesia, mas para a classe operária ela é necessária e absolutamente indispensável.” Para os artistas também. Vamos ter que aprender.

Causa Operária: Pode falar mais sobre seu trabalho a questão da ligação com o teatro?
Silvia Leblon: O teatro nasceu na rua. Se não existisse arte na rua não seríamos o que somos. Não nascemos de chocadeira. Temos uma história. A Edith Piaf foi descoberta cantando na rua. Ando trabalhando muito em espaços públicos. Fiz esse trabalho no Jardim da Luz, como já disse, que resultou na peça Sombras da Luz. Vamos apresentá-la em fevereiro no Centro Cultural São Paulo, na mostra Ivo60. Nós observamos e entrevistamos muitas pessoas para entender aquela realidade. Pude me aproximar de pessoas que nunca me aproximaria: albergados, prostitutas velhas que estão ali há 20 anos trabalhando, para ganhar de 15 a 25 reais por programa, para satisfazer aos homens e ter o que comer. Uma delas me disse: - Se eu soubesse antes, que eu poderia viver disso, meus filhos não tinham passado fome. Elas vão lá pra ganhar o almoço do dia. São pessoas com seus valores humanos, todos lutando para manter a sua dignidade, apesar de tudo. Qual desses políticos chegou perto de um “fedorento” da rua e perguntou o que ele pensa da vida, e o que ele sabe sobre a vida e sobre os políticos? Os artistas estão fazendo isso. A inteligência não é dom e mérito dos ricos, limpos, poderosos e estudados. A inteligência se dá por todos os poros, pela experiência, através do que se vive e se aprende. Nenhum político tocou no assunto, durante as eleições, sobre esse povo que está se acumulando nas ruas. Não dão votos. Fiquei procurando qual político estava tratando disso. Achei um, em outra cidade. Não aqui. Precisamos de mais albergues, é prioridade, caso de saúde pública. Em Londres não tem pobre que não come e dorme. Ele pode ser pobre, se não conseguiu mais que isso, ele tem direito a um cofrinho registrado pelo governo que lhe permite pedir esmola. Mas o governo sabe que ele existe e lhe dá comida e guarida. Aqui dizem que eles não querem, estão muito degradados, preferem ficar nas ruas... Todos? Eu pergunto. Todos querem ficar nas ruas?!
É um assunto que merece toda a nossa atenção, estudo e solução mais que urgente. 
Um governo tem que cuidar do seu povo, deve lutar contra os interesses que vão contra esse povo.
O artista, quando opta pela rua, é porque ele quer esta experiência. Uma experiência que é humana e humanizadora por excelência. Se nos envergonhamos de nossos artistas populares, então vamos muito mal. A arte vai brotar, a vida vai continuar brotando, no pior lugar. E quem estiver contra, pode esperar que vai dar a volta. 
Eu acho que esta indignação que estou acumulando é de mulher, cidadã, mãe, avó, artista, pessoa que se preocupa com a vida, que luta pela vida e que a vê desrespeitada o tempo todo. 

Causa Operária: Como você tomou conhecimento destas medidas contra os artistas na Paulista?
Silvia Leblon: Na Câmara dos Vereadores, no Viaduto Jacareí, quando fui na Assembléia da classe, pela Lei de Fomento, vi uns músicos idosos, muito dignos e articulados, em seus ternos, empunhando um cartaz que dizia da repressão que estavam sofrendo nas ruas. Falaram que o trabalho pra eles está escasseando muito com o aumento da música eletrônica nos bailes. Por isso estão tendo que ir para as ruas, para não passar fome. Soubemos de historias dramáticas, tentativas de evitar a apreensão de seus instrumentos pela policia: um violinista que quebrou o próprio instrumento, um cadeirante que tocava guitarra e que se atirou em frente a um ônibus, etc. Dias depois, fiquei sabendo através de uma noticia veiculada no grupo Palhaçada, que é um grupo de palhaços no Yahoo, da prisão tumultuado de um músico que toca na Paulista há 14 anos! Ficamos indignados. Propus sairmos em cortejo. Minha idéia era fazer um ato artístico, um cortejo de palhaços. Só que acabou virando uma manifestação, e espalhou pelo Facebook.
Eu não esperava uma repercussão tão grande. As pessoas começaram a aderir. Apareceu o Causa Operária...
Queremos que pare a repressão aos artistas na rua.

Causa Operária: O jurista Luiz Flavio Gomes declarou que é um ato nazista, e um abuso de autoridade, as prisões. Você pode comentar?
Silvia Leblon: Se um jurista está dizendo isso... Somos um país com vício de autoritarismo, sim. Governar não é mandar, como os que mandam, pensam. Os pais acham que educar é mandar, na escola pública os professores mandam, a diretora manda, os chefes mandam, a policia manda.
Colegas nossas foram impedidas de dançar no Parque Trianon, outro dia. Elas estavam ensaiando um número para apresentar para a faculdade e veio um guardinha e falou “não pode dançar”. Falou que podia correr, fazer ginástica, mas não dançar.
Dá pra acreditar que no país do carnaval, das festas populares, um país colorido, que para o mundo é o país da festa, da alegria, não se pode dançar no parque? E brincar, pode? Pagam milhões no Natal por aqueles enfeites faraônicos pro povo ficar olhando; dançar no parque na pode. Um artista vivo não pode tocar na calçada pra matar sua fome.
Que autoridade é essa? Autoridade em quê?
Autoridade não é isso. São nossos servidores, são pagos com nossos impostos, impostos abusivos, aliás.
Aqui os governantes se dão um aumento no fim do ano, pra eles mesmos!!! E somos nós que pagamos! Isso é um escândalo! É um absurdo pagarmos um imposto desses, principalmente os artistas, que não têm a mínima garantia do que vão ganhar amanhã. Porque a maioria dos artistas são autônomos. Prestam serviço temporário. 
Não queremos, uma cidade assim, um país assim, um mundo assim.
Eu acredito que esta é uma luta humanista, pelos valores humanos. O que estou fazendo não é militância política, partidária. Estou lutando pelo direito legitimo de exercer minha profissão livremente no país onde nasci. 

Causa Operária: O que acha que está por trás desta medida e por que isto está acontecendo agora?
Silvia Leblon: O que está acontecendo é por causa da Operação Delegada, contra o comércio ilegal. Responderam os encarregados da Prefeitura que a policia não está entendendo a diferença entre comércio ilegal, e artistas. Que polícia mais desinformada a nossa! Não só a policia...
Não é comércio porque a doação é espontânea. Isso acontece em todos os lugares do mundo. Dizem que a lei não esclarece detalhes. Querem que ajudemos a definir melhor os tipos de manifestações que podem ocorrer e criar portarias para regulamentar. Mas precisamos ter cuidado com a burocracia que é outro meio de amarrar o povo. Vivemos no capitalismo, onde tudo vale dinheiro. O que não dá dinheiro, não interessa. Você tem que pagar pra viver. Pra ter o direito à vida. Você paga por tudo... até vir a calamidade. Aí aprendemos que a vida não é só dinheiro. Também trocamos conhecimento, experiência, afeto, cuidado. Estamos vivendo a calamidade!
Arte na rua é encontro de humano com humano. Nós precisamos disso.

Causa Operária: Gostaria de fazer considerações finais?
Silvia Leblon: O artista não vai pra rua só quando não tem opção. Também vai porque é sua opção. Vai para exercer sua função social, cultural, histórica. 
Temos agora uma rede de informações. Vamos recolher depoimentos dos artistas de rua, fazer um levantamento desses artistas que espontaneamente tocam nas ruas. Começar a documentar e publicar, na internet, onde der. 
Nós estamos dizendo o que queremos. A Prefeitura nos chamou para conversar. Esperamos que nos ouçam.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Mostra de repertório IVO 60

Recomendo e convido a todos para assistirem os espetáculos da Mostra IVO 60 no Centro Cultural São Paulo.

Tive a alegria de dirigí-los em Sombras da Luz, num processo longo e muito rico, sobre a realidade do Parque Jardim da Luz.

Admiro muito esses jovens atores, talentosos e trabalhadores, que andam não atrás da facilidade, mas do conhecimento através do fazer teatral, a serviço da comunidade.
Confiram.        Silvia Leblon

Mostra de repertório IVO 60
Dez anos de teatro na cidade de São Paulo

Centro Cultural São Paulo de 15 a 27 de fevereiro.
Programação:

O Menino que fugiu da Peça (infantil)

Durante uma apresentação de teatro na escola, o pequeno Denis não entra em cena. Ele fugiu da peça.O episódio traz à tona a questão da liberdade versus autoridade no ambiente escolar,com uma linguagem musical e bem-humorada.
Dias 15 e 16 de fevereiro, terça e quarta, às 14h30
Sala Jardel Filho

Sombras da Luz

A partir de depoimentos de frequentadores do Parque da Luz, a peça revela uma busca por dignidade em meio ao caos social. A sabedoria na loucura, o riso na tragédia, a liberdade na miséria. Histórias de quem acredita que "a buniteza é compartilhar os fracassos".
Dias 19 e 20 de fevereiro, sábado e domingo, às 17h30
Jardim Eurico Prado Lopes (rampa de acesso ao metro)
em caso de chuva será apresentada em frente à biblioteca às 18h

Top! Top! Top!

Adaptação teatral da obra do cartunista Henfil. Graúna, Zeferino e Bode Orelana estão em busca de um pouco d´água na caatinga.Enquanto isso, no "sul maravilha", os frades Baixim e Cumprido refletem sobre a solidariedade humana.
Dias 23 e 24 de fevereiro, quarta e quinta, às 19h
Sala Adoniran Barbosa

Gozolândia - Uma Farsa Democrática

Narra a trajetória da fictícia "Gozolândia" do descobrimento à atualidade,onde o úblico elege um candidato. Uma crítica bem-humorada à democracia brasileira,problematizando a falta de transformações estruturais na sociedade e a espetacularização da política.
Dias 26 e 27 de fevereiro, sábado e domingo, às 17h30
Jardim Eurico Prado Lopes (rampa de acesso ao metro)
em caso de chuva será apresentada em frente à biblioteca às 18h

LOCAL: Centro Cultural São Paulo
Rua Vergueiro, 1000
Paraíso-Metrô Vergueiro
Tel. 3397-4048
Bilheteria aberta com duas horas de antecedência

Toda a programação é gratuita.